Pegue aquele disco de vinil que ninguém mais usa e encaixe na agulha. Consegue ouvir o som? Eu sou um dos melhores barulhos em sua vida. Pois de mim você não cansa. Porque comigo você balança, e não tem vergonha de dançar. Vem, não precisa de coreografia e nem de ensaio. Essa nossa amizade não perde o gingado. E quando mais preciso você toca em minha cintura, e eu em seu ombro. E então me arrasta pelo salão, pelas alegrias e dores, e eu me deixo conduzir. Vê? Nós dois parecemos um! Saiba que eu percebo quando sou música e você erra minha letra, e me desafina. Mas eu te entendo porque, na verdade, eu não sou uma música. Sou uma trilha sonora inteira, espontaneamente inacabada... Mas eu faço valer a pena, não faço? Eu ainda te faço vibrar, e minha amizade ainda te surpreende, e você ainda gosta de ouvir minha voz. E nessa voz eu me dei, eu entreguei letra, melodia e partitura. E assim somos amigos porque, enfim, você se entregou ao meu ritmo, e eu ao seu. E a sua música toca bem fundo em mim quando estou triste, e quando penso: Não há ninguém.
Mas há alguém. Alguém que escutou todo o lado A, e delicadamente retirou a agulha, virou o disco e esperou pelo lado B. E não se intimidou com os refrões agressivos, os trechos tristes, as vãs repetições. Apenas me aprendeu, como quem canta para o meu mal espantar. São muitas as músicas que não cansam, que não se esquecem, que não deixam nunca de aquecer o coração. E dessa nossa amizade eu também não me canso, eu também não me esqueço, eu também reconheço o valor dessa canção.


Amo como quem não gosta muito de tomar banho frio de manhã, mas porque tem de ir trabalhar e não há chuveiro elétrico, toma. Amo como quem diz: Senhor, passa de mim este cálice. Mas se ele não passa, bebe. Amo por causa de, e apesar de. Só não me peça para ser fiel. .jpg)
